Em entrevista à Coluna Desconfia, a assistente social e professora da UEPG, Maria Iolanda de Oliveira, analisa o impacto das barreiras tecnológicas na autonomia da pessoa idosa e aponta falhas na articulação de políticas públicas em Ponta Grossa
Por Eduarda Gomes
A aceleração da digitalização nos serviços públicos e privados alterou drasticamente a forma como nos comunicamos, realizamos pagamentos e acessamos direitos fundamentais. Para aprofundar o debate sobre o envelhecimento populacional, os impactos da desinformação e os desafios da inclusão digital, a Coluna Desconfia conversa com Maria Iolanda de Oliveira. Ela é assistente social, professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e doutoranda em Ciências Sociais Aplicadas na mesma instituição.
Na entrevista a seguir, organizada em blocos temáticos, a pesquisadora analisa como o etarismo e as desigualdades sociais atravessam as velhices e aponta caminhos urgentes para a formulação de políticas públicas intersetoriais.
TECNOLOGIA, BARREIRAS E AUTONOMIA
Desconfia: Como a tecnologia afeta a autonomia das pessoas idosas?
Iolanda: A pessoa idosa não é incapaz de aprender e utilizar a tecnologia. Apesar disso, nós vamos ter pessoas que têm maiores dificuldades que acabam dependendo do auxílio das famílias. Essa dependência compromete a autonomia da pessoa e a coloca em situação de maior vulnerabilidade.
Desconfia: Quais são as barreiras enfrentadas quando os idosos dependem do auxílio de familiares no dia a dia?
Iolanda: O problema é que muitas vezes essas pessoas não têm tempo, não têm muita condição de estar ali muito próximo no dia a dia da pessoa, não têm disponibilidade ou até não têm paciência mesmo. Essa dependência acaba se tornando um problema, compromete a autonomia da pessoa, coloca a pessoa em situação de maior vulnerabilidade.
Desconfia: De que forma ferramentas como o reconhecimento facial podem virar barreiras?
Iolanda: A fisionomia da pessoa muda fisicamente com o avançar da idade, e aí o sistema não consegue reconhecer. Quando um direito ou serviço passa a depender de um aplicativo ou de reconhecimento facial, a tecnologia, ao invés de ampliar a autonomia, acaba reduzindo a autonomia e se transformando em barreira.
Desconfia: As plataformas e sistemas operacionais de hoje realmente são intuitivos para a população idosa?
Iolanda: Os sistemas precisam considerar as reais necessidades da pessoa idosa. Porque às vezes dizem assim: “O aplicativo ou a plataforma é totalmente intuitivo”. Mas é intuitiva pra você, que tem uma certa familiaridade. Eu fico pensando, intuitivo para quem? Ou a minha intuição é muito falha, porque você não consegue clicar no link certo, você perde um tempão pesquisando, procurando. A pessoa cansa, ela desiste, ela se acha realmente incapaz.
DESINFORMAÇÃO, GOLPES E EDUCAÇÃO DIGITAL
Desconfia: É a idade em si que torna o idoso mais vulnerável à desinformação?
Iolanda: A velhice por si só não produz a vulnerabilidade ou a desinformação. São as desigualdades sociais, econômicas, educacionais e culturais que vão atravessar as diferentes formas de envelhecer. Por isso, não falamos de uma velhice, nós falamos de velhices, pensando o envelhecimento como heterogêneo.
Desconfia: As pessoas idosas que vivem nas periferias enfrentam desafios adicionais em relação ao acesso à informação?
Iolanda: As pessoas idosas que vivem em territórios periféricos, historicamente, elas tiveram menor acesso a políticas públicas e também a inserção delas na sociedade foi mais reduzida. Então elas podem enfrentar mais dificuldades ainda em relação aos equipamentos que se têm, a internet, a formação, a orientação, informações confiáveis, então ela fica mais vulnerável em relação a isso.
Desconfia: Um curso rápido de informática resolve a inclusão digital do idoso?
Iolanda: Não é uma aula única ou um cursinho de ensinar a mexer no computador que vai resolver. A educação digital não se limita a ensinar a usar o aplicativo, mas a levar a pessoa à compreensão do que é golpe, do que é informação falsa e de como proteger seus dados pessoais.
Desconfia: De quem é a responsabilidade de combater a desinformação na internet?
Iolanda: Não dá para transferir para a pessoa idosa toda a responsabilidade de identificar sozinha o que é verdadeiro e o que é falso. O que está sendo feito para responsabilizar as plataformas, os aplicativos e as instituições ao criarem formas digitais de acesso? Se culpabiliza e responsabiliza muito o indivíduo, tirando a responsabilidade da sociedade e das empresas.
ETARISMO, LINGUAGEM E CURSO DE VIDA
Desconfia: Por que não devemos usar termos como “melhor idade” ou “terceira idade”?
Iolanda: É totalmente errado. Ou é pessoa idosa, conforme o que se tem legalmente no país, ou é velho mesmo. Falar em melhor idade ou terceira idade é uma forma de mascarar o preconceito que se tem contra a pessoa idosa.
Desconfia: Como o preconceito contra o envelhecer (etarismo) afeta o modo como a própria pessoa se enxerga?
Iolanda: A própria pessoa idosa vai se colocando contra ela. O preconceito vai impregnando. Ela não aceita ser chamada de velha, ela vai dizer que a velhice depende do estilo de vida. Então ela vai assumindo que envelhecimento é ruim, né? Então ela tenta sempre, a todo momento, ser diferente para que seja aceita no conjunto da sociedade.
Desconfia: Por que a ideia de opor “juventude” e “velhice” é equivocada do ponto de vista do curso de vida?
Iolanda: Juventude e velhice estão juntas. A velhice é dentro de uma mesma pessoa. Hoje tenho 60 anos, eu sou a mesma Iolanda. Claro, com características físicas e capacidades funcionais diferentes, mas a mesma Iolanda que nasceu e veio se desenvolvendo, não deixa de ser essa pessoa. Então, por que que a minha velhice tem que ser colocada ou ser oposta ao que foi a minha juventude?
CIDADANIA, DIREITOS E INFORMAÇÃO
Desconfia: A digitalização dos serviços públicos deve substituir totalmente o presencial?
Iolanda: A digitalização dos serviços não pode eliminar o atendimento presencial. Você tem que dar a possibilidade de escolha para a pessoa. E outro ponto importante é não transferir para a pessoa idosa toda a responsabilidade de identificar sozinha o que é verdadeiro e o que é falso.
Desconfia: Como se dá a falta de visão de futuro e de acolhimento social para os idosos que passam dos 70 ou 80 anos?
Iolanda: A pessoa completou 60 anos, ela vai continuar envelhecendo, ela vai chegar aos 70, 80, 90 anos. O que tem de projeção de futuro para essas pessoas? Praticamente nada, porque não se pensa. O mínimo que se pensa é sobre a pessoa idosa independente, capaz de viajar, de fazer as coisas sozinhas. E o restante da população que envelhece com dificuldades? E os cuidados sociais? E as relações interpessoais, sociais, atividades culturais, de recreação, de lazer? Não pode colocar a pessoa ali sentada, esperando um dia após o outro.
Desconfia: Como a busca e a necessidade de informação vão muito além do uso de redes sociais ou operações bancárias?
Iolanda: Quando se pensa em informação, eu penso no aspecto tecnológico, no financeiro de acesso aos bancos, na área da política, mas informação se resume só a isso? Nas questões práticas do dia a dia? Será que a pessoa não continua tendo vontade de ter informação teórica? De fazer um estudo mais aprofundado sobre algumas coisas, ou ter a informação sobre a sexualidade, o que está acontecendo com ela mesma? Então, a informação é muito maior do que isso que a gente pensa.
POLÍTICAS PÚBLICAS E A REALIDADE DE PONTA GROSSA
Desconfia: Ponta Grossa conta com uma estrutura ou secretaria especializada para atender a população idosa?
Iolanda: Não tem. Ao questionar se existe uma política da pessoa idosa no município, e fiz isso no Conselho de Direitos da Pessoa Idosa, não se tinha uma secretaria específica para fazer o atendimento dessa população. Na maioria das vezes a resposta é: “Na assistência social nós temos o serviço de convivência, a saúde tem o grupo de hipertensos”. Eu pergunto: qual é a secretaria efetivamente responsável pela população idosa no município? Não tem. E qual é a articulação que existe entre esses serviços? Porque a mesma pessoa idosa que passa na Unidade Básica de Saúde (UBS), passa no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e na área de habitação. Os setores precisam se organizar de forma articulada, porque hoje os próprios sistemas informatizados que eles têm nem conversam entre si.
Desconfia: O que o município de Ponta Grossa precisa fazer no campo das políticas públicas?
Iolanda: Ponta Grossa já está com 14% de população idosa. A inclusão precisa ser pensada de forma intersetorial, articulando assistência social, saúde, educação, habitação e cultura. Não significa apenas oferecer maior acesso à tecnologia, mas compreender as condições reais e sociais de vida que essas pessoas têm.
Desconfia: Quem na esfera pública municipal deveria se articular para atuar na garantia de direitos e inclusão digital?
Iolanda: Eu penso que legislativo, executivo, judiciário precisam estar intersetorialmente trabalhando em conjunto nos seus âmbitos. Precisa envolver para além desses setores de governo, envolver a sociedade, as universidades, as organizações da sociedade civil para participar, para pensar, ouvir essas organizações, criar espaços de participação e controle social, por exemplo, os conselhos de direitos e os conselhos de políticas públicas.
