Ausência de debates científicos e informativos sobre o afeto e o corpo no envelhecimento invisibiliza direitos, alimenta estigmas e expõe a população idosa a riscos à saúde
Por Adriana Santos de Oliveira
Quando pensamos em desinformação, logo vêm à mente as fake news ou as mensagens falsas que circulam nas redes sociais. No entanto, existe outro tipo de desinformação muito silenciosa e perigosa: o simples ato de não falar sobre o assunto. Quando a sociedade decide fingir que um tema não existe, ela também está desinformando e é exatamente isso o que acontece com a sexualidade e o afeto na velhice, um dos temas mais escondidos e silenciados do nosso dia a dia.
Cheios de preconceitos, muitos ainda acreditam na ideia equivocada de que envelhecer significa deixar de sentir desejo, paixão ou vontade de ter intimidade. Esse tabu faz com que a pessoa idosa não encontre orientações claras sobre o próprio corpo. O resultado vai muito além do preconceito: sem informação de qualidade, homens e mulheres 60+ perdem o direito de cuidar da própria saúde, deixam de esclarecer dúvidas médicas e acabam isolados em suas emoções e desejos.
Tratar o envelhecimento como um processo homogêneo e desprovido de afetividade é uma construção estrutural e cultural que ignora a diversidade das trajetórias humanas. O corpo que envelhece continua sendo um corpo dotado de sensibilidade, necessidades afetivas e busca por pertencimento. Mas a escassez de campanhas preventivas, materiais educativos acessíveis e diálogos abertos no cotidiano familiar e, muitas vezes, nos serviços de saúde, cria um cenário de vulnerabilidade. Sem orientação adequada, a população idosa enfrenta barreiras para tirar dúvidas sobre mudanças corporais, prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e o exercício de sua autonomia afeto-sexual de forma segura e saudável.
Nesse contexto, outro ponto merece atenção: a superproteção familiar e a infantilização da pessoa idosa costumam limitar sua privacidade e sua liberdade de escolha. Muitas vezes sob o pretexto do cuidado, nega-se à pessoa idosa a gestão sobre seu próprio corpo e suas relações, confundindo proteção com violação de direitos fundamentais assegurados pelo Estatuto da Pessoa Idosa.
É por isso que levar informação de qualidade para as pessoas é o melhor caminho contra esse silêncio. Ter acesso a orientações corretas sobre a própria saúde e o próprio corpo, em qualquer idade, é um direito de todos. Garantir essas informações ao longo do curso da vida é assegurar que envelhecer não signifique abrir mão da dignidade, da intimidade e do protagonismo. Afinal, se tudo der certo, todos nós vamos envelhecer.
Nota da autora: Este texto é baseado nas reflexões: OLIVEIRA, Adriana Santos de. O Direito à intimidade e a privacidade da pessoa idosa e o papel das políticas públicas. Dissertação (Mestrado em Políticas Públicas), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, 2019.
Adriana Santos de Oliveira é pesquisadora, escritora e consultora em Políticas Públicas e Desenvolvimento Social. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Cultura e Fronteiras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Mestre em Políticas Públicas pela Universidade Estadual de Maringá e Licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal do Paraná. Servidora pública na Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Dedica-se também ao acompanhamento de políticas públicas voltadas à pessoa idosa, atuando junto a gestores públicos, conselhos e comunidades com foco na promoção da memória coletiva, no envelhecimento ativo e no fortalecimento dos vínculos intergeracionais. Contato via Instagram: @adrioliveira.me.
