Por Paulo Batista
A popularização dos smartphones transformou o celular em porta de entrada para serviços essenciais: pagar contas, transferir dinheiro, agendar consultas, estudar e procurar emprego. Para pessoas cegas ou com baixa visão, porém, essa porta costuma estar entreaberta. Este texto discute porque os aplicativos móveis ainda excluem pessoas com deficiência visual e o que precisa mudar no desenvolvimento de interfaces para que a autonomia digital deixe de ser privilégio.
Os números dimensionam o problema. Cerca de 2,2 bilhões de pessoas vivem com algum tipo de deficiência visual no mundo, e o Brasil está entre os países que mais tempo passam em aplicativos. Por aqui, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já contabilizava 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual severa. Cerca de 6 milhões com baixa visão e 500 mil cegas. Ainda assim, um levantamento de 2020 da BigDataCorp com o Movimento Web para Todos, que avaliou mais de dois mil aplicativos de uso comum, apontou que menos de 1% deles eram acessíveis para pessoas com deficiência visual. O estudo também revelou que apenas 14% das imagens publicadas traziam descrição alternativa.
Na prática, o que falha? Uma pesquisa de campo realizada pelo autor na Associação dos Cegos de Juiz de Fora, em Minas Gerais, com mais de 30 pessoas com deficiência visual, de 18 a 82 anos, mostrou que as queixas mais frequentes são letras pequenas, baixo contraste entre texto e fundo, telas desorganizadas e incompatibilidade com leitores de tela como o TalkBack. Aplicativos bancários concentram os relatos mais críticos: biometria que não responde, zoom que deforma a interface e dificuldade no uso do PIX. O resultado é dependência de terceiros para tarefas básicas, o que contraria o direito à acessibilidade previsto na Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015).
As regras já existem: as Diretrizes de Acessibilidade para o Conteúdo da Web (WCAG), do World Wide Web Consortium (W3C), e o Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico (eMAG), no Brasil, recomendam contraste mínimo de 3:1 e compatibilidade com tecnologias assistivas. O que falta é fiscalização e prioridade. Enquanto a União Europeia aplica o European Accessibility Act a empresas públicas e privadas, com prazos e sanções, aqui a norma técnica está defasada e a cobrança é reativa.
Acessibilidade não é favor nem custo extra: é critério de qualidade. Um app legível para quem tem baixa visão é mais simples para todos.
Paulo Batista é bacharel em Sistemas de Informação pela Faculdade Metodista Granbery e pós-graduando em Tecnologia Java pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Atua como desenvolvedor de software, com experiência na criação de aplicações web e sistemas de gestão. Em seu trabalho de conclusão de curso, investigou a falta de acessibilidade em aplicativos para pessoas com visão subnormal, com pesquisa de campo envolvendo pessoas com deficiência visual da Associação dos Cegos de Juiz de Fora. Tem interesse em acessibilidade digital e no desenvolvimento de tecnologias que promovam inclusão e autonomia. É de Juiz de Fora, Minas Gerais.
