“Defender o professor é proteger o direito da população a uma escola capaz de ensinar”
Entrar em uma sala de aula já não significa apenas ensinar. Para milhares de professores brasileiros, significa enfrentar diariamente agressões verbais, humilhações, intimidações e um crescente desgaste emocional. O que deveria ser um espaço de construção do conhecimento tornou-se um ambiente de violência cotidiana.
O aluno dirige ao professor palavras ofensivas, entra e sai da sala quando bem entende, vai à mídia expor o professor com objetivo de diminuir como indivíduo quem está ali para formá-lo. Na atualidade o professor passou a ser tratado como adversário por parte dos estudantes, familiares e, não raramente, pelas próprias estruturas administrativas. Os números de boletins de ocorrências e chamadas de patrulha escolar são alarmantes, só não são mais alarmantes que o adoecimento desses profissionais submetidos a condições degradantes de trabalho.
Um caso recente ocorreu com uma docente de um colégio público da cidade, cuja situação ganhou ampla repercussão na mídia, ampliando significativamente sua exposição pública. Um áudio, supostamente vazado com o propósito deliberado de descredibilizar sua atuação e afastá-la de suas funções, foram amplamente divulgados, submetendo sua imagem e sua conduta ao julgamento da opinião pública. Ao contrário do que costuma ocorrer em situações dessa natureza, a sociedade manifestou-se majoritariamente em defesa da professora, reconhecendo a injustiça da situação. No entanto, os danos emocionais, profissionais e pessoais decorrentes dessa exposição permaneceram invisíveis e imensuráveis. Afinal, como medir as perdas de quem dedicou a própria vida à Educação e viu sua honra, sua trajetória e seu compromisso profissional transformados em objeto de julgamento público?
Vale lembrar da mesma professora há anos, em uma sessão da Câmara Municipal, para aprovar o plano de carreira que permitiria ao curso técnico de Formação de Docentes (antigo Magistério) concorrerem às vagas de concurso público, na prefeitura da cidade, vagas antes apenas reservadas aos profissionais com curso superior. É preciso perguntar se esta deveria ser a recompensa pela luta em defesa dos alunos das classes populares, se o ato mal-intencionado, que tentou jogar na lama a imagem de quem dedicou dezenas de anos à formação de professores, seria o desfecho reservado a uma educadora tão comprometida.
Oportuno questionar também que professores teremos – se teremos -, em um futuro próximo, que vão às redes sociais ofender a dignidade dos mestres em matérias tendenciosas e desprovida de qualquer sensibilidade ou ética profissional. Alguns likes e comentários valem, hoje, a vida toda de uma profissional ilibada e dedicada à função social.
E ela é apenas uma de milhares que sofrem violências cotidianas e humilhações públicas. Tal afirmação não é exagero, segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil, em dezembro de 2025, nove em cada dez professores brasileiros afirmam ter vivenciado situações de violência ou censura. Em 3 de junho de 2025, o jornal Plural, da capital paranaense, apontou que em 2024 cerca de 8.000 professores do Paraná foram afastados devido a problemas de saúde mental, destes 78% são mulheres, demonstrando que a violência também é de gênero, que o ambiente tóxico das salas de aula afeta mais as professoras.
Em busca de dados concretos sobre a situação dos professores da rede pública do Paraná, constata-se a ausência de informações, pois praticamente não há estudos ou levantamentos sobre o tema, nem mesmo o Ministério Público do Paraná tem os números. A invisibilidade também é uma forma de violência. Esse apagamento gera silêncio e omissão, uma vez que os profissionais da Educação não têm qualquer amparo institucional ou jurídico para o enfrentamento dessas situações. A vulnerabilidade também é um projeto político e pedagógico, que intensifica o descaso a toda uma classe social, a escassez de pesquisas alimenta a ausência de projetos de enfrentamento, meios de prevenção e combate à violência. Não há propostas porque o professor é visto como inimigo e não há políticas públicas porque estão à margem. E aquilo que não é mensurado ou reconhecido dificilmente se transforma em políticas públicas.
Sob o slogan “Melhor Educação do Brasil”, o Estado do Paraná constrói um discurso de excelência que contrasta com a realidade vivida por muitos professores. Em nome de indicadores e metas, docentes são submetidos a formas de violência institucional que incluem cobranças desproporcionais, pressão por resultados, exigência de aprovação de estudantes que não atingiram os objetivos mínimos de aprendizagem e constante responsabilização pelo desempenho escolar. Em muitas unidades, parte das equipes gestoras, em vez de atuar como mediadora e defensora do trabalho pedagógico, torna-se agente reprodutora dessas práticas, ampliando o adoecimento docente e enfraquecendo a autonomia profissional dos professores.
Numa espécie de organização durkheiniana, o sistema educacional paranaense é um organismo que funciona perfeitamente, cada um fazendo sua parte, governo, gestores e alunos: uma máquina de moer professores. Enquanto a violência contra os professores continuar sendo tratada como um problema individual e não como uma questão estrutural da educação pública, continuaremos perdendo profissionais, adoecendo aqueles que permanecem em sala de aula e comprometendo a própria qualidade da educação. Defender o professor é proteger o direito de toda a sociedade a uma escola capaz de ensinar.
(*) Tereza Antonet, pseudônimo da autora do texto, é Docente (concursada) na rede pública estadual do Paraná.E.mail: terezaantonet@gmail.com
