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A métrica quantitativa dos partidos e a ideologia de esquerda

By adminCombate on setembro 11, 2026

Por Fabio Anibal Goiris

​Este artigo tem por escopo lançar alguma luz sobre o intricado sistema de partidos políticos do Brasil e, ao mesmo tempo, traçar algumas linhas sobre a ideologiaesquerda, considerando a sua enorme e decisiva importância eleitoral nestes tempos de grave crise. Uma vitória da direita e da extrema direita poderá ser catastrófica para a democracia, podendo abalar a própria história social do Brasil.

​Na ilustração abaixo se observa a lista de partidos políticos em atividade no Brasil. Desde novembro de 2025, o Brasil tem 30 partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Destes, 10 são considerados de esquerda; 6 de centro e 13 de direita. O PT é o partido mais à esquerda enquanto que o Novo é o partido mais à direita. Ao analisar o número de filiados de cada partido, percebe-se que o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro, ao lado do PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), são os dois partidos de maior preferência do eleitorado, de acordo com uma pesquisa do instituto Atlas/Intel. Esta situação desagua num típico caso de polarização. O conceito de polarização é bastante discutido.  

 ​Embora a ‘polarização’ venha a criar o chamado ‘voto por rejeição’, onde se vota por um dos lados e não a favor de um projeto de governo, o embate de ideias e de ações entre esquerda e direita (mesmo sendo polarizada) pode ser entendida como positiva para a democracia. Sistemas de partido único e governos ditatoriais nunca foram a favor da polarização (mas alinhados ao esquema de unipartidarismo monopolista). O aspecto realmente positivo da polarização é que ela define bem as linhas ideológicas, permitindo que a população identifique facilmente as propostas de cada grupo (ou de cada extremo).

​Mas, o que dizer daqueles que se opõem à polarização e chegam a optar pelo centro? Os que hostilizam a polarização e defendem o centro, são os que não querem saber de confrontos e de oposição (como faz particularmente a direita e a extrema direita). Sentem-se ameaçados constantemente pelas críticas da esquerda. Estas críticas expõem as mazelas e as ideias antipopulares da direita. A direita prefere atacar e excluir a esquerda e aderir ao centro. Curiosamente não querem a extinção da própria direita. Defendem o aniquilamento definitivo da esquerda, mesmo que por meio da violência ou da usurpação do poder (leia-se 8 de janeiro de 2023). A direita sonha em surfar livremente no mar do autoritarismo anti-humanista e do fascismo (esta é a razão de criticarem a “polarização política”). Se deduz que a tentativa de extinguir a polarização política (eliminando a esquerda e optando pelo centro) é uma postura contrária à democracia e ao igualitarismo. No Brasil o centro é ocupado basicamente pelo “centrão”. Contudo, para muitos cientistas políticos, ideologicamente, o centro nem sequer existe na política. É apenas uma cortina de fumaça que funciona como uma estratégia, um espaço de barganha utilitarista, uma ilusão retórica.

Figura 1: Partidos políticos brasileiros e sua localização no espectro ideológico: esquerda, centro e direita. De 30 partidos, 10 são considerados de esquerda; 6 de centro e 13 de direita (a expressão extrema-direita não é usada neste quadro). Fonte: Jornal Folha de S. Paulo (07/09/26)

​No Brasil, o sistema partidário é um dos mais fragmentados do mundo. Não é tão fácil identificar quais partidos são realmente de esquerda e quais de direita. Há uma propaganda pela mídia de que todos os partidos (sem exceção) querem a democracia, o republicanismo e a igualdade. Nada mais longe da verdade. Há partidos claramente autoritários e de extrema direita. Há fusões e alianças entre partidos (abertamente desiguais em sua ideologia). Além disso, o posicionamento de um partido pode não estar sendo condizente com a maneira como seus representantes tomam decisões. Sem falar nas coligações esdrúxulas e a infindável troca de legendas.

​De qualquer modo, o que não se pode descartar é a persistência de uma luta entre voto ideológico versus o voto pragmático. O ‘voto ideológico’ e o ‘voto pragmático’ representam duas lógicas distintas de comportamento eleitoral, dividindo o eleitorado entre a fidelidade a princípios (mais comum no eleitor de esquerda) e a busca por resultados concretos no cotidiano (mais comum no leitor de direita). Enquanto o primeiro se baseia em visões de mundo abstratas ou ideológicas, o segundo é movido pelas necessidades imediatas (ou utilitaristas) do cidadão.

​Saliente-se que a política partidária brasileira apresentou nos últimos tempos mais de onze mil trocas de partidos, quinze mil coligações partidárias e mais de um milhão de pessoas que doaram dinheiro aos partidos (somando 2,1 bilhões de reais). Mesmo com este turbilhão de dados, parece estar emergindo, paradoxalmente, um eleitor brasileiro mais consciente. Um eleitor que vem rejeitando a designação jocosa de “pobre de direita”, como diz Jessé Souza. Um eleitor (especialmente aquele comprometido com a democracia e a luta de classes) para o qual a coerência está em acreditar na ideologia do seu partido. Afinal, parece ser cada vez maior o número de eleitores e militantes de esquerda, cujo alinhamento com a ideologia do seu partido e a defesa de suas pautas são vistos como caminhos fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa.

​Nos últimos tempos, a esquerda vem colhendo os frutos da sua rica história. A longa trajetória da esquerda não se reduz apenas à militância burocrática (como tem sido a história da direita), mas a uma argamassa de lutas, embates e conquistas. Uma militância impressionante repleta de avanços e recuos. Não é para menos, a esquerda nasceu com a Revolução francesa (1789); emergiu junto ao próprio liberalismo clássico. Mas a esquerda não se reduziu a isso, passou a defender o progresso, o trabalhismo e a socialdemocracia. Emergiu sobretudo na defesa do socialismo. A política de esquerda também tem se associado aos movimentos dos direitos civis, o movimento contra as guerras e o ecologismo. A luta da esquerda, cuja essência é a própria luta de classes, já tem mais de dois séculos (desde aquele ano em que os reformistas franceses se sentaram no ‘lado esquerdo’ da Assembleia Nacional).

​Não obstante, mesmo com essa longa história, no Brasil, os movimentos de esquerda são de existência relativamente recente. No plano federal só ganharam expressividade na Nova República (período da história do Brasil iniciado em 1985 que marca o fim da Ditadura Militar e a redemocratização do país). Incluem o governo de João Goulart (brevemente antes de 1964), os mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva e os governos de Dilma Rousseff.

​Cabe conjecturar que a esquerda brasileira, nos dias de hoje, se reveste de uma grande força político-eleitoral. É a única expressão ideológica capaz de mostrar aos outros países da América Latina (particularmente aos alinhados à direita), que é possível resistir e se sobrepor as investidas hegemônicas e fascistoides do capitalismo tardio, como a política intervencionista de Donald Trump (que inclui a própria extrema direita).  Além disso, a esquerda brasileira, felizmente, é o único segmento político que destoa da direita, criticando duramente o famigerado e punitivista “modelo Bukele” de segurança pública. Essa mesma esquerda democrática brasileira poderá demonstrar também que o grande causador da debacle econômica do Banco Master, envolto em bilionária corrupção, é essencialmente uma corrupção que envolve maioritariamente a ideologia de direita e não a de esquerda. Para isso basta ler os excelentes artigos do cientista político Celso Rocha de Barros. Por fim, já não há razões válidas, no Brasil de hoje, para que o chamado ‘eleitor mediano’, continue a se posicionar raivosamente contra as políticas públicas de um Estado progressista. Ou seja, contra o Estado que promove a inclusão social, a distribuição de renda e a luta por reformas estruturais (como as mudanças profundas nas leis e nas normas institucionais).

​Pode-se concluir que, no âmago do neoliberalismo, o que se verifica é umabusca desenfreada por parte do homem de: a) eficiência, b) burocratização e c) cálculo instrumental (uma reedição do velho utilitarismo benthamiano), como elementos de “sucesso”. Esta busca passou a dominar e aprisionar todas as esferas da vida humana, sufocando a liberdade individual e a espontaneidade. Max Weber, notável sociólogo alemão, já dizia, mesmo sem ser um pensador igualitarista, que era importante a libertação do homem da “jaula de aço”. Já o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han indicava em seus livros que o homem passou a ver a si mesmo como uma empresa, em busca de métricas de produtividade, a caminho da triste sociedade do desempenho e do cansaço… ​

 

Fabio Anibal Goiris é professor da Uepg. Graduado em Direito pelo Cescage. Mestre em Ciência Política pela UFRGS. Autor do livro: ‘Estado e política: a história de Ponta Grossa, Pr’.

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