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O que as eleições 2026 confirmam no Brasil, sem novidades?

By adminCombate on outubro 7, 2026

Autoria: Sérgio Gadini

As eleições de 2026 registram situações que precisam ser avaliadas aos próximos pleitos de disputa, em especial para fortalecer a representação política e legitimar a democracia como direito de escolha, participativa e capaz de assegurar uma pluralidade mínima de projetos, valores e potencialidades para resolver os problemas vivenciados pela maioria da população.

Em primeiro lugar, o que se destaca? Talvez, já se pode dizer que poucas vezes as campanhas veicularam tanta desinformação, mentira vergonhosa mesmo, em alguns casos, inclusive por setores da mídia corporativa, que mantém a velha tradição (servil) de se alinhar às candidaturas que representam os interesses de poucos às custas da maioria de pobres. Nada de novo no front, pois.

A segunda marca do pleito, na mesma lógica, é a constatação de que a prática de uma estranha entrevista legitimou outra estratégia de propaganda, como se fosse quase um ‘vício de jornalista neutro’ (espécie de detergente ou sabão incolor): abrir espaço para entrevista com tempo cronometrado nada garante, se mediador ou apresentador/a limita-se em abrir microfone, não questiona, levanta a bola a sua excelência, para mentir, negar comprovações científicas (crise climática devido à destruição ambiental, por exemplo) ou apenas atacar adversários que nem ali estão para contestar.

A estratégia (assumida ou silenciosa) dos gestores editoriais da mídia empresarial dominante retomou, na disputa eleitoral de 2026, uma prática vigente em tempos ditatoriais que parecia superada no jornalismo brasileiro: ‘deixai mentir’, pois o candidato tem direito de falar, mesmo que seja asneira, mentira explícita, ou mesmo para contestar o que não aceita, inclusive vídeo divulgado ou gravação telefônica por práticas suspeitas de corrução. A mentira passa a ser ‘normalizada’ na medida em que o espaço midiático é usado por candidaturas sem escrúpulo para mentir, negar, e atacar adversários quando não se tem proposta concreta para resolver os problemas sociais. E o tal ‘jornalismo’ (global ou regional) engole quase tudo, com ou sem farinha e sem água para digerir tanta desinformação.

O terceiro eixo da disputa 2026 diz respeito ao trabalho de quem carrega a campanha nas ruas e, pela tarefa, amplia a campanha em busca do voto. Um candidato ‘paga formiga’ para segurar bandeira ou distribuir material nas ruas, mas ‘cobra’ voto por extensão familiar da pessoa (contratada). O uso (abusivo) do fundo eleitoral, aqui, legitima uma outra forma velada de comprar voto, como nos velhos tempos dos currais eleitorais? E quem diz isso? Oficialmente, ninguém. Mas em alguns minutos de conversa cordial com ‘trabalhadores de campanha’, independente do partido/coligação, pode-se constatar a adesão consentida (ou negociada?) pelo ‘trabalho’ concedido. A diária é modesta, mas se passar de 5h ao dia, pode ter lanche e até protetor sol, caso a temperatura exija.

Existem exceções, por óbvio! Poucas pessoas que afirmam não votar no ‘patrão/candidato’ assumem o risco, depois de boas conversas, inclusive sob a distância controlada dos chefes ou ‘coordenadores de rua’ (capataz de bairro). O voto, pois, segue valendo pouco aos pobres que precisam sobreviver.

A quarta constatação da disputa é igualmente preocupante! Situação similar acontece com jornalistas, marqueteiros, assessores e até pretensos influenciadores: em geral, aumentaram os casos em que profissionais da mídia parecem se convencer rapidamente por algum contrato temporário (bem ou não remunerado): vestem a camisa, saem de boton, colam adesivos em carros da família e usam as próprias redes sociais privadas para divulgar a boa nova que contagia a província ou a re-pública. O candidato, sua excelência, agora parece quase outra pessoa. Quem sabe, até amigável, talvez humano, quem diria, mesmo solidário, embora nos meses da agenda eleitoral.

Como se vê, o assessor, publicitário ou jornalista assume a tarefa de cabo eleitoral, bem diferente do que o profissionalismo vigente há algumas décadas no País motivava conversas entre membros de diversas campanhas sem dilemas e criticidade aos chefes-candidatos. Tem, aí, um recuo associado a um esvaziamento da autonomia e respeito profissional que os próprios colegas parecem não se dar conta ou, se entenderam, jogaram aos ventos.

A quinta marca da disputa do ano é também econômica. O fundo eleitoral é reconhecidamente o ‘motor’ econômico da disputa eleitoral, o que não é pouca coisa: quase R$ 5 bilhões em 2026, divididos entre 30 partidos, mas boa parte concentrada em 5 ou 6 legendas com mais deputados federais. E bem concentrado também na mão de dirigentes partidários que distribuem por critérios pouco transparentes e sequer justificáveis, inclusive com claras demonstrações de favorecimentos familiares, grupos e até prestadores de serviços. Assessor comissionado, por exemplo, que recebe pagamentos através da campanha custeada pelo fundo eleitoral (dinheiro público), não é apenas um caso isolado em que dobra ou triplica salário nos meses da ‘farra’ gorda que marca a eleição em todas as frentes no ano corrente.

Alguns poucos sites ou periódicos já denunciaram diversos casos de favorecimentos nos pagamentos e ‘dobras’ salariais aos nomeados e também para onde vai parte do dinheiro. Seria isso mesmo? Não é por falta de informação ou conhecimento, pois as prestações de contas estão todas no site do Tribunal Superior Eleitoral, que as autoridades podem conferir e verificar a procedência, justificativa e razoabilidade dos dados divulgados.

A sexta constatação é o destino do dinheiro, que elevou a concentração repasse às big techs. O aumento é ainda imensurável, mas avança na ilusão – coletiva ou apenas imaginária – de que a visualidade e força de uma campanha eleitoral estaria prioritariamente em redes digitais. Na aposta, dá-lhe investimento em postagem nas plataformas que operam sem transparência pela magia de um algoritmo programado, embora nada se informa como funciona, apesar da insistência de milhões de contribuintes.

A falta de uma política de comunicação pública para abrir a caixa das big techs, aqui, apenas aumenta o lucro de grandes grupos multinacionais que, agora, recebem dinheiro público através do fundo eleitoral, sem qualquer contestação. E, sim, todas (ou quase) candidaturas investem com a mesma naturalidade que algum desavisado aposta em jogos eletrônicos, acreditando no sucesso, sem indicador de resultado, apenas por um suposto alcance a setores eleitorais que, presencialmente, não se conseguiria chegar até o dia da eleição. Os valores do uso do fundo eleitoral logo estarão disponíveis e devem confirmar uma realidade preocupação aos partidos responsáveis pelo destino e gestão do dinheiro público.

E, por fim, a sétima constatação, ainda que em ritmo estimado: o encarecimento das campanhas eleitorais não se sustenta apenas na máquina que espera reeleição aos cargos públicos, mas no acesso ao dinheiro do fundo eleitoral: em geral, um deputado que disputa a reeleição tem um valor entre R$ e 2 e 3 milhões de reais para gastar em cerca de dois meses da campanha. Os demais, em especial que tentam disputa no ‘povoado’ correm por fora ou buscam espaço por outros meios, por certo, mais complicados do que as cartas disponíveis aos que apenas tentam carimbar mais quatro anos de mandato, seja na câmara federal ou assembleia estadual.

Em tempo: as reflexões aqui não têm qualquer caráter e tampouco intenção de denúncia, mas pensar alguns desafios para humanizar as disputas eleitorais no País, a partir de pequenas situações que afetam a vida das pessoas que lutam pela sobrevivência. Por certo, as autoridades legais responsáveis (Tribunal Eleitoral, Ministério Público do Trabalho ou mesmo o Ministério Público Estadual) devem ter recebido informações para verificar o que acontece nas eleições 2026.

 

Sérgio Gadini é jornalista, professor no sistema universitário estadual público no Paraná.

E-mail: sergiogadini@yahoo.com.br

 

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