Uso da linguagem em golpes digitais expõe a vulnerabilidade de idosos à engenharia social e levanta o debate sobre autonomia e acolhimento das vítimas
Por Lorena Bianca da Silva
Quando pensamos em golpes financeiros, é comum imaginarmos que a vítima foi enganada porque não tinha informação suficiente, não conhecia a tecnologia ou simplesmente “não desconfiou”. Mas talvez seja necessário olhar para outra direção: para a linguagem utilizada por quem pratica o golpe.
As palavras também produzem ações. Uma ligação que começa com “estamos entrando em contato para sua segurança” pode produzir confiança. Uma mensagem dizendo “sua conta será bloqueada” produz medo. A frase “precisamos resolver isso agora” produz urgência. E, quando confiança, medo e urgência aparecem juntos, até uma pessoa instruída e acostumada a tomar decisões pode agir de uma maneira que, em outra circunstância, não agiria.
Se isso pode acontecer com qualquer pessoa, precisamos ter ainda mais atenção quando pensamos na população idosa e na rápida transformação digital dos serviços bancários.
Em poucos anos, muitas atividades que eram realizadas presencialmente passaram para a tela de um celular. Agência, funcionário, assinatura e conversa deram lugar a aplicativos, reconhecimento facial, tokens, códigos, links e senhas. Para quem acompanhou todo esse processo desde o início, essas palavras podem parecer simples. Para quem precisou aprender tudo rapidamente, elas podem representar um idioma quase desconhecido.
É nesse espaço de insegurança que a engenharia social encontra terreno.
O criminoso não precisa necessariamente dominar um sistema bancário. Muitas vezes, precisa dominar a conversa. Ele se apresenta como alguém que sabe mais, utiliza palavras que remetem à autoridade de bancos e instituições e, principalmente, oferece ajuda: “Eu vou orientar a senhora”; “faça exatamente como estou dizendo”; “é um procedimento de segurança”.
A linguagem, nesse momento, deixa de ser apenas um instrumento de comunicação e passa a ser instrumento de convencimento.
Há ainda outro elemento muito poderoso: o medo de perder a autonomia financeira. Para muitas pessoas idosas, ouvir que a conta ou o benefício será bloqueado significa imaginar que não poderão comprar alimentos, medicamentos ou pagar as despesas da casa. O dinheiro representa também independência. Por isso, a ameaça do bloqueio pode provocar pânico e levar a decisões tomadas sob pressão.
Entretanto, a resposta para esse problema não pode ser retirar da pessoa idosa o controle sobre sua vida financeira.
É comum ouvirmos, depois que uma pessoa idosa é vítima de um golpe: “Agora deixa que eu cuido do seu banco”, “não mexa mais no aplicativo” ou “me passe sua senha que eu resolvo”. Mesmo quando essas frases surgem da intenção de proteger, elas podem produzir outro problema: a infantilização.
Envelhecer não significa perder automaticamente a capacidade de decidir.
Precisamos ensinar segurança digital sem retirar autonomia. Isso significa orientar a pessoa a interromper uma ligação suspeita, procurar diretamente o banco, não fornecer senhas ou códigos, não realizar transferências sob pressão e conversar com alguém de confiança diante de uma situação incomum. Significa ensinar que dizer “não entendi”, “vou verificar” ou simplesmente “não vou fazer isso agora” também é exercer autonomia.
Existe, porém, uma palavra que talvez seja ainda mais cruel depois do golpe: vergonha.
Quem foi vítima frequentemente se pergunta: “Como pude acreditar?”. Muitas vezes, a família e até outras instituições reforçam esse sentimento perguntando: “Como você caiu nisso?”. O resultado pode ser o silêncio. A pessoa esconde o golpe porque teme ser considerada ingênua, incapaz ou “velha demais” para cuidar do próprio dinheiro.
E o silêncio beneficia justamente quem pratica a fraude.
Talvez seja necessário mudar a linguagem que utilizamos também com as vítimas. Em vez de perguntar “Como você pôde cair nisso?”, podemos perguntar: “Como eles convenceram você?”. A mudança parece pequena, mas desloca o olhar da suposta incapacidade da vítima para as estratégias utilizadas pelo criminoso.
Essa mudança é especialmente importante quando falamos de pessoas idosas. Combater golpes não pode significar reforçar o etarismo, tratando toda pessoa idosa como incapaz de compreender a tecnologia. Precisamos oferecer informação acessível, educação digital, espaços de aprendizagem e uma rede de apoio na qual seja possível pedir ajuda sem medo de julgamento.
Desconfiar também se aprende.
Talvez uma das principais lições para o ambiente digital seja justamente esta: diante da urgência, podemos parar; diante do medo, podemos conferir; diante de uma ordem, podemos perguntar; e diante de algo que não compreendemos, podemos pedir ajuda.
E, se mesmo assim o golpe acontecer, a primeira palavra dirigida à vítima não deveria ser “como?”.
Deveria ser: “Vamos resolver isso juntos.”
Lorena Bianca da Silva é advogada, assistente social e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Com especialização em Direito Aplicado pela Escola da Magistratura do Paraná (Emap) e capacitação em Comunicação Não Violenta (CNV), Justiça Restaurativa e Mediação Judicial, atua diretamente no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos de Idosos do Grupo Renascer Ponta Grossa. Sua trajetória acadêmica e profissional dedica-se à análise do discurso, à garantia de direitos da pessoa idosa e às dinâmicas da linguagem no campo social e jurídico.
