Osni Jr. dos Santos
As redes sociais operam por meio de reforçamento contínuo. Mas o que isso significa? Tudo o que vemos na internet é direcionado aos nossos perfis para que compremos produtos ou, principalmente, para que passemos mais tempo consumindo determinado serviço. As plataformas digitais sempre nos entregam algum tipo de reforço, um ganho normalmente vinculado a respostas emocionais ao consumirmos um conteúdo.
Esse padrão de resposta emocional contrasta com a vida real. No cotidiano, ganhamos e perdemos; em certos momentos somos reforçados, em outros punidos. Boa parte do conteúdo consumido on-line provoca sentimentos excessivos — tristeza, alegria, medo — que nos fazem sentir vivos em meio a uma vida de faz de conta.
Por que precisamos usar filtros de imagem, postar o café da manhã ou sempre aparecer sorrindo em viagens? Porque, on-line, somos produtos vendidos a todo momento. Consumimos a vida ilusória do outro e, simultaneamente, vendemos a nossa.
Em alusão ao Setembro Amarelo, movimento de prevenção ao comportamento suicida, algumas reflexões são importantes:
1. A vida envolve sofrimento, mas não um sofrimento constante. Se você não consegue enxergar um futuro à sua frente, procure ajuda profissional.
2. As pessoas não são aquilo que postam ser. O que está on-line é um produto comercializado a um alto custo emocional.
3. Quem realmente se importa com você não são aqueles que curtem suas fotos, mas os que estão próximos na vida real — onde você também é real.
Estamos mal-acostumados a observar vidas perfeitas on-line e desejar ser quem simplesmente não existe. A velocidade e a quantidade de informações que inundam nosso cérebro com hormônios de prazer são proporcionais ao aumento de comportamentos ansiosos e depressivos quando voltamos ao contato com a vida real.
É importante que, ao se identificar sofrimento psíquico, sejam acionados os serviços de saúde — públicos ou privados — que contem com profissionais capacitados para intervenções em saúde mental. Mais uma vez, vale o alerta: a internet não possui regulamentação plena; os serviços de saúde devem estar vinculados a profissionais que atuem com bases científicas claras e validadas, como psicólogos, psiquiatras e outros especialistas com formação técnica específica.
Que esta breve reflexão sirva para lembrar que tudo o que está na internet deve ser questionado. As pessoas retratadas ali não são totalmente reais e suas vidas perfeitas são, no mínimo, questionáveis. Sua imaginação não flui de forma produtiva nos aplicativos como poderia fluir nos livros, devido à quantidade de informações imposta ao seu intelecto.
A saúde mental nas redes sociais começa pela dúvida. Não é necessário se trancar em uma “caverna” off-line, mas é fundamental entender que nem tudo é o que parece. Não há vida tão bela ou tão valiosa quanto a sua própria vida. Ela pode não gerar likes nem vendas, mas, justamente por ser real, não é um produto.
Texto: O autor é especialista em Psicologia Clínica e do Trabalho, atua como professor de Psicologia na UNICESUMAR e como psicólogo na Clínica Contingências, na abordagem da Análise do Comportamento. E-mail: osnijrsantos@gmail.com
