Skip to content
Menu
Combate a Desinformação Combate a Desinformação
  • Início
  • Áudios
  • Fotos
  • Vídeos
  • Notícias
  • Análise & Debate
  • Programa Combate à Desinformação
  • Programa Saúde & Cidadania
  • Desconfia
  • Sobre
Combate a Desinformação Combate a Desinformação

Independência em Disputa: do Grito aos Silêncios de 7 de setembro

By adminCombate on setembro 6, 2025setembro 6, 2025

Elizabeth S. de Souza

O que permanece em silêncio quando lembramos do 7 de setembro como o dia do ‘Grito do Ipiranga’? Historicamente, a Independência do Brasil esteve rodeada de mitos e simplificações, sendo frequentemente retratada como uma transição pacífica, repentina e orquestrada pelas elites. Entretanto, pesquisas recentes têm ressaltado outras leituras, como o papel da participação popular e os conflitos armados durante o processo (RIBEIRO, 2002; JANCSÓ, 2005; PIMENTA, 2022). A historiografia evoluiu de narrativas tradicionais, centradas no heroísmo monárquico, para interpretações que revelam micro-histórias silenciadas e contestam versões dominantes.

O dia 7 de setembro tornou-se emblemático nas comemorações cívicas, livros didáticos e iconografias oficiais, atribuindo protagonismo a D. Pedro I às margens do rio Ipiranga. Tal interpretação perpetuou-se por décadas, consolidando o mito fundacional da nação, que é retratada como emergente sem rupturas violentas e sem a participação dos diversos segmentos sociais que marcavam a época. Nesse sentido, o “Grito do Ipiranga” representa as ações das elites e, ao mesmo tempo, simboliza o silêncio dos sujeitos marginalizados – mulheres, indígenas e escravizados. Essa narrativa histórica simplista ainda ecoa nos discursos contemporâneos.

Combater a desinformação histórica e política é condição indispensável para que a data deixe de ser manipulada e se torne oportunidade de reflexão crítica sobre o Brasil do passado e o que queremos construir

Na província da Bahia, as lutas pela independência contaram com mulheres como Maria Quitéria e Joana Angélica, que tiveram papéis relevantes e desafiaram os limites patriarcais (ITABORAÍ, 2024). Maria Quitéria de Jesus, sob o pseudônimo de “Soldado Medeiros”, disfarçou-se de homem e atuou diretamente nos combates, sendo reconhecida por sua coragem e habilidade. Por outro lado, Joana Angélica ficou marcada pelo enfrentamento às tropas portuguesas que tentaram invadir o seu convento em Salvador. Muito além de histórias individuais de bravura, esses episódios evidenciam os desafios enfrentados pelas mulheres em sua busca por reconhecimento e igualdade.

Ademais, é importante destacar que o “Grito do Ipiranga” constitui apenas um evento singular dentro do contexto de extensas deliberações políticas e diplomáticas. Na realidade, o processo da Independência foi longo, conflituoso e desigual, principalmente devido à ausência de um consenso político (JANCSÓ, 2005; PIMENTA, 2022). Enquanto certas províncias aderiram rapidamente ao novo Império e a cessação da continuidade do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, outras se engajaram em uma enfática resistência, exemplificada pelos conflitos violentos na Bahia, Maranhão, Piauí, Pará e Cisplatina.

Portanto, o ensino escolar tradicional e representações oficiais – como a célebre pintura “Independência ou Morte”, de Pedro Américo – reforçaram os mitos e simplificações em torno da Independência do Brasil, consolidando a imagem de um imperador como ícone nacional. O objetivo era claro: unificar a memória em torno de um mito de origem que legitimasse a autoridade imperial e, mais tarde, republicana, silenciando contradições sociais e regionais.

Se no século XIX o dia 7 de setembro foi transformado em mito fundador, como ele vem sendo apropriado, no século XXI, pelas disputas políticas contemporâneas? Segundo Pablo Ortemberg (2022), a partir de 2021, setores autoritários converteram a data em ato de mobilização popular, ressignificando símbolos nacionais como a bandeira, o hino e as cores verde e amarela como marcas de determinados grupos, criando uma narrativa excludente de “verdadeiros patriotas”. Entretanto, essa apropriação tem revelado algumas contradições, pois em nome da “liberdade”, as manifestações passaram a atacar instituições democráticas, a imprensa, as universidades e até a soberania nacional. Assim, o que deveria ser uma celebração plural da Independência tornou-se palanque de projetos que reivindicam a democracia enquanto flertam com práticas autoritárias, expondo a fragilidade das instituições políticas brasileiras.

Comparar o uso do dia 7 de setembro entre o passado e presente permite uma análise bastante instigante: tanto em 1822 quanto hoje, a data funciona como campo de disputa de memórias devido à sua dimensão simbólica, refletindo as contínuas lutas a respeito da identidade nacional. Em ambos os contextos, a desinformação é o instrumento de manipulação da consciência pública, forjada para estabelecer uma lógica de unidade nacional a fim de silenciar a pluralidade social e política. Entretanto, o elemento exacerbador nos tempos atuais é o fenômeno das mídias digitais, como plataformas X (antigo Twitter) e WhatsApp, que amplificam a mobilização política associada a narrativas distorcidas (SLEMIAN et al., 2024).

Em síntese, ressignificar o 7 de setembro constitui um esforço imperativo. Isso exige a recuperação das múltiplas experiências de 1822, reconhecendo que a Independência abrangeu não apenas D. Pedro I, mas também mulheres, populações indígenas, pessoas de ascendência africana e camadas populares. Defende-se, assim, a preservação dos espaços democráticos como arenas de diversas vozes, impedindo que símbolos nacionais sejam apropriados por projetos excludentes.

 

Referências:

ITABORAÍ, Nathalie Reis. O gênero da nação: presenças e representações das mulheres na Independência do Brasil. In: Nuevo Mundo Mundos Nuevos [Online], Colóquios, 2024. Consultado em 03 setembro de 2025. DOI: https://doi.org/10.4000/11vrl

JANCSÓ, István (Org.). Independência: história e historiografia. São Paulo: Hucitec, 2005.

ORTEMBERG, Pablo. El Bicentenario de la Independencia de Brasil: la celebración de Jano. In: IdeAs: Idées d’Amériques, Paris, n. 20, 2022, p. 1 – 8.

PIMENTA, João Paulo. Independência do Brasil. São Paulo: Contexto, 2022.

RIBEIRO, Gladys Sabina. O desejo da liberdade e a participação de homens livres pobres e “de cor” na Independência do Brasil. In: Cadernos CEDES, Volume: 22, Número: 58, 2002, p. 21 – 45.

SLEMIAN, Andréa; SANTIROCCHI, Ítalo D., & Bastos Pereira das Neves, L. M.. A Independência do Brasil no seu Bicentenário. In: Revista de Historiografia (RevHisto), 2024, n. 39, 149-180.

 

Texto: A autora é doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), atua como professora no Departamento de História da UEPG e é afiliada à Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentos (SEO). E-mail: elizabethssouza@uepg.br

 

Facebook X.com LinkedIn Instagram Pinterest More

Share this content

Social Media

Facebook X.com Reddit Tumblr Snapchat VKontakte Odnoklassniki Weibo QQ Douban Baidu Digg StumbleUpon Flipboard Mix

Professional

LinkedIn Slack Zoom XING Behance Dribbble

Messaging

WhatsApp Telegram Microsoft Teams Messenger Viber Line WeChat SMS Kik Threema Signal

Visual

Pinterest Instagram

Communication

Email

Bookmarking

Pocket Evernote Instapaper

Developer

GitHub GitLab Stack Overflow Dev.to Hacker News

Gaming

Discord Twitch

Video

YouTube TikTok

Publishing

Medium WordPress Blogger

Entertainment

Spotify SoundCloud

Academic

Mendeley ResearchGate Academia

Finance

Coinbase

Shopping

Amazon eBay Etsy

Lifestyle

Foursquare Yelp

Utility

Copy Link Print QR Code
Category: Análise & Debate

Navegação de Post

Mesa-redonda aproxima Direito e Comunicação no debate sobre desinformação
Combate à Desinformação organiza atualização do jogo “Real ou Fake?” e prepara futuras ações

Related Posts

DO DIA DO “ÍNDIO” AO DIA INTERNACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS: RELAÇÕES ENTRE AS LUTAS POR DIREITOS E A (DES)INFORMAÇÃO OU INFORMAÇÃO ESTEREOTIPADA E PRECONCEITUOSA

agosto 8, 2025
Read More

UM JULGAMENTO HISTÓRICO

setembro 26, 2025
Read More

OCULTANDO UM GENOCÍDIO E OUTROS CRIMES: O CASO DE GAZA

julho 31, 2025
Read More

1 thought on “Independência em Disputa: do Grito aos Silêncios de 7 de setembro”

  1. MariSol disse:
    setembro 7, 2025 às 6:05 pm

    Ótima leitura, ajuda a entender como símbolos nacionais podem ser usados de jeitos bem diferentes

    Reply

Deixe um comentário Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novidades

  • Projeto Combate à Desinformação apresenta jogo “Real ou Fake” para equipe da IESOL na UEPG
  • Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)
  • Perseguição durante a ditadura no Paraná
  • Desinformação na América Latina
  • Novo episódio do programa aborda o uso do ódio como ferramenta de desinformação
©2026 Combate a Desinformação | WordPress Theme by Superb WordPress Themes
×
Facebook X.com LinkedIn Instagram Pinterest

Share this content

Social Media

Facebook X.com Reddit Tumblr Snapchat VKontakte Odnoklassniki Weibo QQ Douban Baidu Digg StumbleUpon Flipboard Mix

Professional

LinkedIn Slack Zoom XING Behance Dribbble

Messaging

WhatsApp Telegram Microsoft Teams Messenger Viber Line WeChat SMS Kik Threema Signal

Visual

Pinterest Instagram

Communication

Email

Bookmarking

Pocket Evernote Instapaper

Developer

GitHub GitLab Stack Overflow Dev.to Hacker News

Gaming

Discord Twitch

Video

YouTube TikTok

Publishing

Medium WordPress Blogger

Entertainment

Spotify SoundCloud

Academic

Mendeley ResearchGate Academia

Finance

Coinbase

Shopping

Amazon eBay Etsy

Lifestyle

Foursquare Yelp

Utility

Copy Link Print QR Code