Elizabeth S. de Souza
O que permanece em silêncio quando lembramos do 7 de setembro como o dia do ‘Grito do Ipiranga’? Historicamente, a Independência do Brasil esteve rodeada de mitos e simplificações, sendo frequentemente retratada como uma transição pacífica, repentina e orquestrada pelas elites. Entretanto, pesquisas recentes têm ressaltado outras leituras, como o papel da participação popular e os conflitos armados durante o processo (RIBEIRO, 2002; JANCSÓ, 2005; PIMENTA, 2022). A historiografia evoluiu de narrativas tradicionais, centradas no heroísmo monárquico, para interpretações que revelam micro-histórias silenciadas e contestam versões dominantes.
O dia 7 de setembro tornou-se emblemático nas comemorações cívicas, livros didáticos e iconografias oficiais, atribuindo protagonismo a D. Pedro I às margens do rio Ipiranga. Tal interpretação perpetuou-se por décadas, consolidando o mito fundacional da nação, que é retratada como emergente sem rupturas violentas e sem a participação dos diversos segmentos sociais que marcavam a época. Nesse sentido, o “Grito do Ipiranga” representa as ações das elites e, ao mesmo tempo, simboliza o silêncio dos sujeitos marginalizados – mulheres, indígenas e escravizados. Essa narrativa histórica simplista ainda ecoa nos discursos contemporâneos.
Combater a desinformação histórica e política é condição indispensável para que a data deixe de ser manipulada e se torne oportunidade de reflexão crítica sobre o Brasil do passado e o que queremos construir
Na província da Bahia, as lutas pela independência contaram com mulheres como Maria Quitéria e Joana Angélica, que tiveram papéis relevantes e desafiaram os limites patriarcais (ITABORAÍ, 2024). Maria Quitéria de Jesus, sob o pseudônimo de “Soldado Medeiros”, disfarçou-se de homem e atuou diretamente nos combates, sendo reconhecida por sua coragem e habilidade. Por outro lado, Joana Angélica ficou marcada pelo enfrentamento às tropas portuguesas que tentaram invadir o seu convento em Salvador. Muito além de histórias individuais de bravura, esses episódios evidenciam os desafios enfrentados pelas mulheres em sua busca por reconhecimento e igualdade.
Ademais, é importante destacar que o “Grito do Ipiranga” constitui apenas um evento singular dentro do contexto de extensas deliberações políticas e diplomáticas. Na realidade, o processo da Independência foi longo, conflituoso e desigual, principalmente devido à ausência de um consenso político (JANCSÓ, 2005; PIMENTA, 2022). Enquanto certas províncias aderiram rapidamente ao novo Império e a cessação da continuidade do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, outras se engajaram em uma enfática resistência, exemplificada pelos conflitos violentos na Bahia, Maranhão, Piauí, Pará e Cisplatina.
Portanto, o ensino escolar tradicional e representações oficiais – como a célebre pintura “Independência ou Morte”, de Pedro Américo – reforçaram os mitos e simplificações em torno da Independência do Brasil, consolidando a imagem de um imperador como ícone nacional. O objetivo era claro: unificar a memória em torno de um mito de origem que legitimasse a autoridade imperial e, mais tarde, republicana, silenciando contradições sociais e regionais.
Se no século XIX o dia 7 de setembro foi transformado em mito fundador, como ele vem sendo apropriado, no século XXI, pelas disputas políticas contemporâneas? Segundo Pablo Ortemberg (2022), a partir de 2021, setores autoritários converteram a data em ato de mobilização popular, ressignificando símbolos nacionais como a bandeira, o hino e as cores verde e amarela como marcas de determinados grupos, criando uma narrativa excludente de “verdadeiros patriotas”. Entretanto, essa apropriação tem revelado algumas contradições, pois em nome da “liberdade”, as manifestações passaram a atacar instituições democráticas, a imprensa, as universidades e até a soberania nacional. Assim, o que deveria ser uma celebração plural da Independência tornou-se palanque de projetos que reivindicam a democracia enquanto flertam com práticas autoritárias, expondo a fragilidade das instituições políticas brasileiras.
Comparar o uso do dia 7 de setembro entre o passado e presente permite uma análise bastante instigante: tanto em 1822 quanto hoje, a data funciona como campo de disputa de memórias devido à sua dimensão simbólica, refletindo as contínuas lutas a respeito da identidade nacional. Em ambos os contextos, a desinformação é o instrumento de manipulação da consciência pública, forjada para estabelecer uma lógica de unidade nacional a fim de silenciar a pluralidade social e política. Entretanto, o elemento exacerbador nos tempos atuais é o fenômeno das mídias digitais, como plataformas X (antigo Twitter) e WhatsApp, que amplificam a mobilização política associada a narrativas distorcidas (SLEMIAN et al., 2024).
Em síntese, ressignificar o 7 de setembro constitui um esforço imperativo. Isso exige a recuperação das múltiplas experiências de 1822, reconhecendo que a Independência abrangeu não apenas D. Pedro I, mas também mulheres, populações indígenas, pessoas de ascendência africana e camadas populares. Defende-se, assim, a preservação dos espaços democráticos como arenas de diversas vozes, impedindo que símbolos nacionais sejam apropriados por projetos excludentes.
Referências:
ITABORAÍ, Nathalie Reis. O gênero da nação: presenças e representações das mulheres na Independência do Brasil. In: Nuevo Mundo Mundos Nuevos [Online], Colóquios, 2024. Consultado em 03 setembro de 2025. DOI: https://doi.org/10.4000/11vrl
JANCSÓ, István (Org.). Independência: história e historiografia. São Paulo: Hucitec, 2005.
ORTEMBERG, Pablo. El Bicentenario de la Independencia de Brasil: la celebración de Jano. In: IdeAs: Idées d’Amériques, Paris, n. 20, 2022, p. 1 – 8.
PIMENTA, João Paulo. Independência do Brasil. São Paulo: Contexto, 2022.
RIBEIRO, Gladys Sabina. O desejo da liberdade e a participação de homens livres pobres e “de cor” na Independência do Brasil. In: Cadernos CEDES, Volume: 22, Número: 58, 2002, p. 21 – 45.
SLEMIAN, Andréa; SANTIROCCHI, Ítalo D., & Bastos Pereira das Neves, L. M.. A Independência do Brasil no seu Bicentenário. In: Revista de Historiografia (RevHisto), 2024, n. 39, 149-180.
Texto: A autora é doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), atua como professora no Departamento de História da UEPG e é afiliada à Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentos (SEO). E-mail: elizabethssouza@uepg.br
