Que comecemos nos perguntando: quantas pessoas trans estão ao meu redor? Quantas já vi pessoalmente em minha vida toda? Com quantas conversei? E com quantas tive alguma interação afetuosa?
Essas perguntas iniciais não são apenas direcionadas à pessoas cisgêneras. Nós, enquanto pessoas trans, somos lançadas a viver na marginalidade, e às vezes em isolamento. E isso afeta nossa constituição subjetiva, e nossas redes de afeto e cuidado. E esses apontamentos iniciais parecem importantes para que se analise minimamente qual nosso quadro de referência quando pensamos em pessoas trans, observando de onde vem as constituições desse imaginário sobre este grupo social.
Porque, querendo ou não, a verdade é que o corpo sempre chega antes, e vem carregado de sentido. E o Brasil é um país com fundamentações de imaginário social sobre pessoas trans instaurado em concepções de violência e criminalidade ou escárnio e vexação em espaços midiáticos (Heliodoro, 2021), de patologizacão em espaços de saúde (Aguiar, 2020) e de objetificação e silenciamento em espaços de produção de saber acadêmico (York; Oliveira; Benevides, 2020). Isso tudo fundamenta as práticas cotidianas relacionais de pessoas trans, e cria fundamentalmente os processos de marginalização dessas vidas. E um dos pontos fulcrais desse processo é
a própria relação de trabalho.
Um grande desafio para análise das experiências trans no Brasil – e no mundo – é a falta de dados. Essa falta é mais que um acaso, é projeto: em contextos em que a produção de políticas públicas se organiza a partir de dados estatísticos, a recusa pela coleta significa a produção institucional da invisibilidade de determinadas comunidades,
aqui pensando especificamente na comunidade de pessoas trans. Em resumo, recusar a marcação dessa presença em levantamentos estatísticos significa atuar ativamente na manutenção da marginalização trans brasileira.
Os dados que temos hoje para trabalhar são coletados principalmente pelo movimento social de pessoas trans, nacional e internacionalmente, e divulgados a partir de relatórios ou dossiês anuais. Ainda há um vácuo muito grande quando falamos sobre essas informações e isto precisa avançar, para que políticas públicas mais efetivas
sejam instauradas no estado brasileiro.
Em um país em que o espaço escolar também tem como função o preparo de um corpo e subjetividade para o mercado de trabalho, a expulsão intensa de pessoas trans desse contexto educacional parece significar pelo menos duas coisas: a primeira delas é que há um imaginário muito forte de que pessoas trans não são sujeitas possíveis
para estarem no mercado de trabalho, e por isso já são empurradas para fora desse espaço de preparo para esta área da vida; a segunda delas é que, mesmo apesar da expulsão intensa, se há a permanência do corpo trans no espaço escolar, esse corpo segue não conseguindo acessar o mercado de trabalho como poderia acessar se fosse
um corpo cisgênero, porque justamente não é constituído como um corpo inteligível para este espaço.
O rompimento com a inteligibilidade do gênero cria, então, o afastamento compulsório de pessoas trans de basicamente todos os espaços de sociabilização, relegando esses corpos à busca pela sobrevivência, e não pela integralidade da vida. Que possamos caminhar para a constituição de um espaço que garanta dignidade para as vidas trans.
Ronna Freitas de Oliveira é mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Atuou como professora colaboradora na disciplina O Estágio e a Formação Docente em Língua Portuguesa e Literatura.
Referências utilizadas pela autora:
HELIODORO, Giovana. A representação trans e travesti na mídia brasileira. BuzzFeed. 2019. Disponível em: <buzzfeed.com.br/post/representacao-trans-e-travesti-na-midia-brasileira>. Acesso em: 01 de set. 2023.
HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2008.
AGUIAR, Juno Nedel Mendes de. Habitando as margens: a patologização das identidades trans e seus efeitos no Brasil a partir do caso Mario da Silva (1949-1959). Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, 2020.
