Emilly Joice Oliveira Lopes Silva
O termo “ideologia de gênero” é bastante falado e discutido. No entanto, existe muita desinformação em relação a essa expressão. No cotidiano, podemos observar esse desconhecimento em episódios como a polêmica causada, recentemente, pela indicação do livro “Faca Sem Ponta, Galinha Sem Pé”, da autora brasileira Ruth Rocha, para um clube de leitura infantil em Curitiba.
No livro, os irmãos Joana e Pedro passam embaixo do arco-íris e trocam de sexo. Por isso, muitas mães reclamaram da indicação, alegando se tratar de um livro com “pegada de ideologia de gênero” (Galindo, 2025). Nesse exemplo, fica evidente o uso reducionista e pejorativo da expressão. Um comentário deixado em site de venda de livros para “Faca Sem Ponta, Galinha Sem Pé” também demonstra essa concepção: “Livro malicioso e tendencioso. Os pais tem [sic] que ficar atentos. Ideologia de gênero! NÃO INDICO. Mais uma estratégia de forçar ideologias de gênero para crianças. LIXO DE CONTEÚDO!!!”. A ideia, portanto, é de que o livro, que não causou grandes polêmicas quando ocorreu sua publicação, em 1996, estaria impondo a tal “ideologia de gênero” para as crianças. Mas, afinal, o que essa expressão significa? De onde vem? Por que é tão criticada?
É preciso compreender que o termo tem (pelo menos) duas concepções: uma científica, ancorada em discussões teóricas de diversos campos do saber; e outra do senso comum, utilizada nas mídias, discursos políticos e concepções religiosas, que compreende a ideologia de gênero como imposição de visões sobre sexo e gênero que se oporiam à ideia de família e aos papeis tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres.
No campo científico, a partir dos estudos de gênero e feministas, a ideologia de gênero é vista como um discurso que reforça normas sexuais baseadas em diferenças naturais, atribuindo papéis fixos a homens e mulheres na sociedade. Ela promove uma visão essencialista de masculino e feminino, conectando sexo, identidade de gênero e orientação sexual, bem como defendendo a ideia de família heterossexual (Zucco; Silva, 2019).
Uma das primeiras autoras, nesse campo, a trabalhar com o termo Ideologia de Gênero é Teresa de Lauretis. Para ela, o cinema, a literatura e outras formas de discurso perpetuam a diferenciação sexual que cria as categorias homem e mulher. Por isso, ela defende uma definição de gênero pautada pela ideia de representação, ou seja, como um produto de diversas tecnologias e discursos institucionais. Nesse sentido, ela observa a existência de uma contradição que é fundante para o gênero: a tensão entre a mulher, entendida como representação, e as mulheres como sujeitos reais e históricos. No centro dessa contradição, estaria a interpelação, ou seja, “o processo pelo qual uma representação social é aceita e absorvida por uma pessoa como sua própria representação, e assim se torna real para ela, embora seja de fato imaginária” (Lauretis, 1994, p. 220).
Assim, em termos gerais, o gênero é entendido como construção, discurso ou tecnologia que atribui características a partir de diferenciações sexuais. Assim, não se trata de negar essas diferenças, mas de compreender que elas são atravessadas por marcadores sociais, culturais e históricos.
O uso de senso comum do termo “ideologia de gênero” não dialoga com essas concepções e comumente rejeita estudos da biologia, genética e outros campos científicos sobre as diferenciações sexuais. Essa concepção tem como pano de fundo os avanços obtidos por mulheres e outros grupos minoritários nas últimas décadas do século 20 e surge como uma espécie de resposta “anti gênero”.
Na América Latina, um dos principais responsáveis pela difusão do termo “ideologia de gênero” de forma pejorativa foi Jorge Scala, autor do livro “Ideologia de Gênero: o neototalitarismo e a morte da família”. Além dele, o cardeal colombiano Alfonso Lopez Trujillo e o monsenhor Michel Schooyans também combateram a ideologia, considerando-a promotora de uma cultura anti família, do colonialismo sexual e da ideologia da morte. Nesse sentido, Miskolci e Campana (2017) destacam que, na América Latina, a ideologia de gênero é usada como resistência aos avanços nos direitos sexuais e reprodutivos, especialmente contra o aborto, o reconhecimento de casais do mesmo sexo e a educação sexual nas escolas (Zucco; Silva, 2019).
Com isso, é possível notar que o uso negativo do termo surge com uma intenção política que não está diretamente relacionada com a discussão científica sobre a categoria gênero. Ademais, as críticas à ideologia de gênero quase sempre estão ligadas ao pânico moral, como retratam Miskolci e Campana (2017). Por essa razão, é fundamental conhecer melhor a história e os usos desse conceito, para que seja discutido em profundidade e não apenas como uma crítica vazia e desconectada do debate científico sobre gênero em nossa sociedade.
Referências:
Galindo, Rogério. Mães do Curitibano tentam retirar livro de Ruth Rocha de clube de leitura infantil por “ideologia de gênero”. Plural, 29 maio 2025. Disponível em https://www.plural.jor.br/maes-do-curitibano-tentam-retirar-livro-de-ruth-rocha-de-clube-de-leitura-infantil-por-ideologia-de-genero/.
Lauretis, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 206-242.
Miskolci, Richard; Campana, Maximiliano. “Ideologia de gênero”: notas para a genealogia de um pânico moral contemporâneo. Revista Sociedade e Estado, 32, 3, 2017, p. 725-747. Doi.10.1590/s0102-69922017.3203008.
Zucco, Luciana; Silva, Emilly. Ideologia de Gênero. In: Santos, Vera Márcia Marques et al (orgs.). Dicionário de educação sexual, sexualidade, gênero e interseccionalidades. 1. ed. Florianópolis: UDESC, 2019.
Texto: A autora é doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (USFC) e professora colabora do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
