Fábio Bacila Sahd
Historicamente, regimes infratores de direitos humanos têm recorrido a vários subterfúgios para dissimular seus crimes. O caso palestino/israelense não é diferente, nem começou com o genocídio atualmente em curso na Faixa de Gaza. A negação mais geral e estruturante é a de que Israel se constitui em uma democracia liberal padrão e não em um regime de apartheid, como até a Corte Internacional de Justiça já reconheceu, além de especialistas, inúmeras organizações internacionais, palestinas e israelenses e do guardião da Convenção Internacional para a Erradicação de Todas as Formas Discriminação Racial.
Se uma “etnocracia”, como é o Estado israelense, busca manter uma fachada democrática, o enrijecimento de suas estruturas de dominação e discriminação, a partir de 2012, levou à pacificação da tese do apartheid na comunidade internacional. Afinal, desde sua fundação em 1948, trata-se de um Estado racialmente definido como judaico, logo não de todos seus cidadãos, que é soberano em um território multiétnico, com os aparelhos estatais a serviço da judaização/despalestinização territorial, que constitui o eixo da violência racial. Mas na propaganda israelense, ecoada pela mídia hegemônica, trata-se não de um regime racista e da contraviolência que gera, mas da garantia da segurança e do combate ao terrorismo. No melhor dos casos, fala-se em “guerra”, como se não houvesse apenas movimentos anticoloniais de libertação com braços armados, mas um exército palestino, como parte de um Estado. A falsa simetria é estratagema antigo e não exclusivo desse caso.
Desse mito político estruturante se desdobram as outras negações e as estratégias narrativas são várias. No caso de Gaza, tenta-se transferir a culpa das mortes e da destruição para o Hamas, simplesmente negar (como o caso da fome generalizada) ou recorrer a expressões do direito humanitário internacional para esvaziar e distorcer a realidade. Enquadram-se aí as supostas “zonas seguras” e “evacuações humanitárias”, quando em realidade se trata da concentração de palestinos em zonas submetidas a constantes ataques e sem condição alguma de garantir a continuidade da vida, provocando uma morte abrupta ou “lenta”. Uma estimativa dita conservadora aplicada por especialistas para o genocídio de Gaza é a de que para cada morte direta ocorrem quatro indiretas, o que, caso se verifique, já eleva a estimativa de óbitos para próximo de 250.000.
Por fim, como isso tudo se reflete na cobertura de mídias hegemônicas, como o portal G1? São vários os padrões de manipulação empregados, destacando-se: a omissão completa ou no mínimo a secundarização de análises críticas e de documentos relevantes, a relativização dos fatos, a falsa simetria de falas reproduzidas, mas sobretudo a descontextualização geral, no caso, os surtos de violência não são desdobramentos óbvios de um regime de apartheid, que é a causa primeira da violência na região. Não raro o contexto ou ponto de partida é uma ação armada da resistência palestina, o que reforça a noção equivocada do terrorismo como causa primeira ou contexto explicativo, em vez de resposta anticolonial. Especificamente no caso mais recente do genocídio se destaca nesse padrão de manipulação reproduzir insistentemente após cada afirmação ou dado crítico trazidos em reportagens reproduzidas de agências internacionais adjetivos deslegitimadores do tipo, segundo órgãos da organização terrorista, extremista, radical do Hamas, enquanto se omite que dados oriundos do Estado de Israel advêm de um regime de apartheid. Quando aparecem os conceitos de apartheid e genocídio figuram entre aspas ou são relativizados, ainda que óbvios e ao menos o primeiro já pacificado como entendimento jurídico. Esse conjunto pode ser sintetizado na opção de linhas editoriais de seguir falando em guerra e não em genocídio, em ocupação e não em apartheid. Assim tornam-se cúmplices.
Texto: Fábio é doutor pelo programa interdisciplinar “Humanidades, direitos e outras legitimidades”, da Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor de textos sobre identidade, violência, política e direitos humanos e internacionais no Oriente Médio, como o livro “Apartheid na Palestina/Israel”.
