Thais Cristina dos Santos
Segundo o Dicionário de Cambridge (2019) o conceito fake news remete a histórias falsas, disseminadas pela internet ou por outras mídias, sendo geralmente criadas para influenciar pontos de vista políticos ou como piada criada com a intenção de obter vantagem ou poder.
Logo, essa intencionalidade, propagada pelas falsas notícias (fake news) transcende a mera desinformação pontual, configurando-se como um instrumento complexo de poder na contemporaneidade. Operando uma verdadeira engenharia do poder que impacta diretamente a percepção pública e a efetivação de direitos fundamentais, inclusive socioambientais (Silva, et al, 2020).
A informação e a desinformação desta forma, refletem a hegemonia de uma liderança ideológica e cultural que uma classe social exerce sobre outras, não apenas pela coerção, mas principalmente pelo consentimento fabricado. Neste contexto, as fakes news atuam como ferramentas na luta pela hegemonia, fabricando um senso comum que mistifica a realidade e naturaliza visões de mundo particulares. Por consequência, esta “indústria da falsificação”, transforma a informação em commodity, esvaziando-a de seu potencial crítico e a subordinando a interesses políticos e econômicos (Horkheimer; Adorno 2002).
Isso porque, as fake News possuem a potencialidade de utilizar a abstração do conteúdo dos Direitos Humanos, por exemplo, para violá-los, sem que o receptor da mensagem perceba (Santos, 2020). Esta violação sutil, mas progressiva, corrói a confiança nas instituições, na ciência e no contrato social, debilitando os anticorpos democráticos necessários para o enfrentamento de crises.
E é precisamente nesse terreno fértil que o negacionismo climático se fortalece. A resistência “raivosa” às evidências científicas sobre as mudanças climáticas não é um fenômeno orgânico ou um mero equívoco cognitivo. Trata-se de uma narrativa estrategicamente construída e disseminada, alinhada ao que Gramsci (1999) denominou de “revolução passiva”, isto é, um processo no qual as classes dominantes promovem mudanças aparentes para preservar estruturas de poder, disciplinando a sociedade para seus interesses.
A desconstrução do consenso científico sobre o clima serve, assim, para retardar políticas de regulação e transição energética que possam afetar lucros de setores hegemônicos da economia, notadamente os baseados em combustíveis fósseis.
A consequência direta dessa operação narrativa é a violação de Direitos Humanos em sua dimensão socioambiental. Isso porque, o direito a um meio ambiente equilibrado, previsto na Constituição Federal de 1988, é negado quando a população é levada a duvidar da realidade das crises e, consequentemente, a não cobrar ações efetivas do Estado.
Por sua vez, a partir dessa negação, os grupos sociais mais vulnerabilizados (populações tradicionais, periféricas e de baixa renda) são os primeiros e mais gravemente impactados pelas secas, enchentes e insegurança alimentar agravadas pelas mudanças climáticas.
Esses impactos são desiguais e atingem com mais força justamente os mais pobres e negros, escancarando uma realidade de racismo ambiental em que populações marginalizadas estão sujeitas a piores condições de infraestrutura e moradia.
Eventos extremos, como o tornado que recentemente devastou quase 90% das residências da região de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, não são isolados, mas parte de um contexto mais amplo em que a crise climática já interfere diretamente no cotidiano, destruindo o desenvolvimento conquistado na forma de casas, escolas e estradas.
A conexão é clara, a intensificação desses fenômenos, como secas e chuvas extremas, está ligada a urgência global, que os torna mais frequentes e intensos, aprofundando as desigualdades pré-existentes e afetando desproporcionalmente os mais vulneráveis como no caso do Rio Grande do Sul em 2024.
Logo, é perceptível que o enfrentamento deste cenário exige, portanto, mais do que fact-checking pontual. Exige, conforme propõem Silva et al. (2020), uma transformação na correlação de forças no campo das ideias. Isso implica na promoção de uma educação crítica e midiática, capaz de desenvolver a “consciência crítica”, isto é, a capacidade de ler o mundo para além das aparências e das narrativas hegemônicas (Freire, 1987). Isto é, é necessário desvelar a “essência” por trás da “aparência” dos discursos, compreendendo os interesses econômicos e projetos de poder que os sustentam. Como o caso da Vale, inocentada pelos impactos ambientais do desastre em Mariana e Brumadinho, estar como uma das principais financiadoras da COP30 que ocorre em Belém/Brasil (2025).
Enfim, a luta contra as fakes news e o negacionismo climático é indissociável da luta pela democracia e pelos Direitos Humanos. Trata-se de uma batalha pelo direito à verdade e por um futuro habitável. Pois, as disputas de narrativas somente se legitimam se ocorrerem no seio de uma sociedade democrática de direitos, em que as classes estejam aptas a disputar entre si, no mesmo grau de percepção e crítica (Silva, et al, 2020). Logo, garantir esse patamar de igualdade na disputa ideológica é, talvez, o maior desafio político do nosso tempo.
REFERÊNCIAS
SANTOS, Thais. C; PLUSKOTA, Jackson W.; SALLES FILHO, Nei A.; MENDES, Daniele C. B. Fake News, Direitos Humanos e a engenharia do poder nas disputas de narrativas. In: SALLES, V.O.; SALLES FILHO, N.A. (orgs.) Cultura de Paz, Direitos Humanos e Sustentabilidade. Vol.2. Ponta Grossa, PR: Texto e Contexto, 2020.
SILVA, Silmara. C. e; SANTOS, Thais. C.; PLUSKOTA, Jackson. W.; SALLES FILHO, Nei. A. Fake News, Direitos Humanos e a Engenharia do Poder nas Disputas de Narrativas. 2020. Anais do XI Seminário Nacional Sociologia & Política. Disponível em: Anais XI Seminário Nacional Sociologia & Política | Even3 Publicações Acesso em: 10 nov. 2025
GRAMSCI, Antônio. Cadernos do cárcere. Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia de Benedetto Croce. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Editora Civilização brasileira. Vol. 1. Rio de Janeiro: 1999.
HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. A Indústria Cultural: O Iluminismo como Mistificação de Massas. In: LIMA, L. C. (Org.). Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
ORWELL, G. 1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1984.
Texto: Thais Cristina dos Santos é Assistente Social (CRESS 10718 – 11ª Região), especialista em Gestão de Pessoas pela UNOPAR, mestre em Ciências Sociais Aplicadas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e doutora em Ensino de Ciências e Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Sua atuação integra políticas públicas, educação, direitos sociais e práticas de atenção a grupos em situação de vulnerabilidade. Pesquisa os efeitos da circulação de informações e narrativas sociais na percepção de direitos, no acesso a serviços públicos e na construção de vínculos com instituições estatais. A autora trabalha com projetos que aproximam a universidade e a comunidade, incentivando processos formativos críticos e participação social. Sua abordagem destaca a importância da informação como ferramenta de autonomia, cidadania e fortalecimento das políticas sociais.
