Merylin Ricieli
A questão central que perpassa a presença negra em Ponta Grossa (PR) não se restringe a uma mera contagem demográfica, mas se condensa na afirmação potente: “Eu não quero ocupar espaço, eu quero pertencer!” Ocupar é circunstancial; pertencer exige agência, autonomia, identificação e, sobretudo, o reconhecimento pleno dos processos históricos.
Essa distinção metafórica é vital em um município que, apesar de ter 27% de seus habitantes autodeclarados negros (IBGE, 2022), sustenta discursos que propagam a ideia capciosa de sua ausência ou irrelevância na formação da cidade. O questionamento “Não há negros em Ponta Grossa?” encontra resposta não apenas nos dados, mas na elaboração do racismo enquanto um “emaranhado de sutilezas” identificado por Beatriz Nascimento “como uma sofisticada rede de pensamentos e ações, que varia para determinados contextos.” (Ratts, 2006, p. 47). Trata-se de uma dinâmica prévia, articulada e multifacetada, que se manifesta como racismo historiográfico, institucional, recreativo, sistêmico, epistêmico e até como projeto político de apagamento racial.
É revelador observar o desconforto de parte da branquitude local diante de pautas racialmente demarcadas. Surge, de imediato, um movimento de negar ou desqualificar tudo o que reafirma a importância histórica e social de pessoas pretas e pardas. O esforço para inventar mitos fundadores homogêneos, exaltando culturas que “fariam mais sentido” para alguns, expressa o desejo de se firmar como protagonista de processos que, na realidade, são coletivos.
Tal conjuntura conduziu pesquisadores negros da região a questionarem o desenho da historiografia local, dedicando-se à construção de um campo que tensiona silenciamentos e desloca paradigmas. É importante destacar que estudos sobre Relações Étnico-Raciais são frequentemente questionados não por falta de rigor, mas porque retiram da branquitude o monopólio cognoscente e normativo da produção do conhecimento.
Diante disso, perguntamos: que estratégias podem ser mobilizadas para (re)desenhar papéis, narrativas e memórias capazes de “colocar na escrita quem já está na história”? Como fortalecer modos de reexistência que moldam as experiências negras nos Campos Gerais?
Além de sistematizar vivências, sociabilidades e conhecimentos da população negra local, expressos em múltiplos espaços físicos e simbólicos, é possível partir dos Territórios Negros existentes e interpretá-los como materialidades de contranarrativas capazes de desestabilizar discursos que sustentam a ficção de uma cidade exclusivamente branca.
Na tese de doutorado Territórios Negros em Ponta Grossa – PR (1970–2010) (Santos, 2022), evidenciam-se alguns desses locais de resistência, sociabilidade e produção de conhecimento que extrapolam os territórios periféricos, indicando a expressividade e a centralidade das vivências negras sob variados aspectos. O Clube Literário e Recreativo Treze de Maio destaca-se como um dos agentes centrais nessa articulação entre reexistência e permanência negra.
Fundado no fim do século XIX, o “Clube dos Pretos” constituiu-se como referência identitária e de sociabilidade para a população preta e parda, funcionando como espaço de contestação, letramento e construção de um conhecimento negro-centrado. Sua relevância como lugar de memória é inquestionável; em 2001, sua sede foi tombada como Patrimônio Histórico Municipal, movimento interpretado como gesto decolonial ao conferir protagonismo não hegemônico e estabelecer diálogo com a cultura afrodescendente em um município onde narrativas brancas de origem alemã e italiana se impõem.
A distinção entre pensar a população negra em chave racial e não étnica, decorre da violência da diáspora africana: processo que dispersou intencionalmente povos de mesmas matrizes culturais, impedindo que reivindiquemos identidades étnicas específicas, restando-nos uma identidade racial forjada sob as dinâmicas do cativeiro.
Além do Clube, as Escolas de Samba também podem ser compreendidas sob essa perspectiva, pois constituem nichos de empoderamento, resistência e produção de conhecimento negro, consolidando práticas decoloniais historicamente situadas. São expressões de uma desobediência epistêmica que reage à paradigmas eurocêntricos.
Comunidades remanescentes de quilombo, como a Colônia Santa Cruz e a Colônia Sutil; espaços de letramento não formal; alguns terreiros de religiões de matrizes africanas e afro-brasileiras; sedes de segmentos do Movimento Negro local, onde se aprende sobre personalidades como Lúcio Alves da Silva, Enfermeiro Paulino e Simillival Madureira, configuram igualmente Territórios Negros que materializam saberes, memórias e experiências comunitárias.
Esses argumentos buscam evidenciar a emergência de uma história da população negra de/em Ponta Grossa que ainda não foi escrita de modo negro-centrado, pois frequentemente aparece como extensão de narrativas hegemônicas perpetuadas e legitimadas pelas representações positivas da branquitude. Tal realidade ilustra o quanto é difícil “construir uma identidade negra positiva em uma sociedade que, historicamente, ensina aos negros, desde muito cedo, que para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo […]” (Gomes, 2017, p. 43). Não incluir um grupo, uma cultura ou uma comunidade na história oficial é também negar agência aos sujeitos que a constituíram.
Reconhecer e visibilizar essas camadas históricas e espaços de resistência é caminho necessário para o que se reivindica: não apenas ocupar, mas pertencer. Pertencer implica reivindicar história, memória e futuro, garantindo que as narrativas enegrecidas estejam no centro das discussões sobre a cidade e seus múltiplos processos formativos.
Referências
GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas. Petrópolis: Vozes, 2017.
IBGE. Censo Demográfico 2022. População e domicílios – Primeiros resultados. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
NASCIMENTO, Beatriz. O quilombo na sociedade escravista brasileira. Petrópolis: Vozes, [S.d.].
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Souza; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2009. p. 73-131.
RATTS, Alex. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Instituto Kuanza, 2016.
SANTOS, Merylin Ricieli dos. Territórios negros em Ponta Grossa – PR (1970-2010). 2022. 283 p. Tese (Doutorado em História) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2022.
Texto: A autora é pós-doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Doutora em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), é também especialista em História, Arte e Cultura pela UEPG. Possui graduação em História (licenciatura) pela UEPG e graduação em Pedagogia pelo Centro Universitário Internacional (UNINTER). É mestre em Linguagem, Identidade e Subjetividade pela UEPG e especialista em Gênero e Diversidade na Escola pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
