Tuany C. Carvalho Santos
“Menina veste rosa e menino azul”. A polêmica declaração da então ministra Damares Alves, em 2019, sintetiza como estereótipos de gênero são naturalizados em nossa sociedade. Mas, o que essa fala somada a discursos e práticas conservadores que a reforçam revelam sobre as relações de gênero na Educação Infantil? O que realmente significa gênero quando falamos sobre crianças pequenas?
A palavra gênero é permeada de muitos tabus, especialmente, quando associada à crianças e infâncias. Como nos explica Scott (1995), gênero não é um fato biológico, mas uma construção cultural que organiza as relações de poder a partir das diferenças entre os sexos. Em outras palavras, aprendemos e ensinamos desde cedo o que é ‘adequado’ para meninos e meninos – rosa é ‘de menina’ ou que carrinhos são ‘de menino’. Nas relações sociais, passamos a compreender normas sociais que prescrevem posturas, comportamentos e atitudes diferenciadas para homens e mulheres, seja por brinquedos, livros, atitudes, roupas, cores, palavras, discursos, entre outros. No entanto, na maioria das vezes, as relações de gênero passam despercebidas, são construídos valores que nem sempre se tornam explícitos, mas que sutilmente determinam nossos comportamentos.
Na Educação Infantil, esses padrões se concretizam nos espaços, brinquedos e nas próprias interações entre crianças e adultos, moldando desde cedo os comportamentos e papeis de meninas e meninos. Ao observarmos uma sala de Educação Infantil, encontramos alguns “cantinhos” pedagógicos, espaços voltados ao interesse e aprendizagens das crianças, compostos por brinquedos e outros objetos, tornam-se espaços e tempos para interações e brincadeiras.
Nesses espaços, geralmente encontramos um “cantinho” da casinha, com panelas, utensílios, fogão, mesa e bonecas, o qual costuma ser identificado como território feminino, ou seja, apenas meninas podem brincar nele. Enquanto isso, “cantinhos” com carros e ferramentas, são voltados aos meninos. Pesquisas realizadas (Carvalho, 2021; Finco, 2010; 2013; Silva, 2015) evidenciam que mesmo professores(as) bem intencionados, sem perceber, por meio de pequenos gestos até os modos como pensam, organizam e utilizam os “cantinhos” pedagógicos e brinquedos, acabam reforçando esses padrões, delineando formas distintas para meninos e meninas na Educação Infantil.
Mas, as crianças são potentes e nos surpreendem. Em muitas ocasiões, nos deparamos com um menino vestindo cuidadosamente uma boneca ou uma menina, construindo impressionantes pistas para carrinhos. Tais momentos revelam um aspecto muito importante: as relações de gênero na infância são muito mais fluídas e criativas do que os estereótipos nos sugerem, transgredindo as normas sociais que delimitam papeis e lugares que devem ser ocupados por mulheres e homens. As crianças necessitam de variedade de tempos, espaços e materiais para que brinquem e interajam, quando propiciamos, elas denotam sua potencialidade ao explorarem e criarem diversas formas de ser e brincar.
E por que isso importa? Porque é na Educação Infantil que encontramos um espaço e um tempo para descobertas e múltiplas vivências, as quais não devem ser limitadas. Ao generificar “cantinhos”, brinquedos e brincadeiras, negamos oportunidades preciosas que compõem o desenvolvimento integral das crianças. Como também, é nesse contexto que se apresentam formas de questionamento, resistência e movimento do poder, criando novas possibilidades de gênero, desconstruindo discursos e práticas sexistas.
Assim, discutir as relações de gênero na Educação Infantil não é ‘doutrinação’, mas é compromisso com uma sociedade e educação mais equitativas. Se quisermos que as crianças explorem todas as suas potencialidades, precisamos questionar: quais discursos estamos transmitindo a elas quando separamos os “cantinhos”, brinquedos e brincadeiras entre ‘coisa de menina’ e ‘coisa de menino’? Afinal, educar na primeira infância não é sobre preparar modos de ser homem e mulher, mas promover que cada criança, em sua singularidade, descubra todo o seu potencial humano. E esse potencial, sabemos bem, não tem papel ou cor definida.
Referências
CARVALHO, T. C. Discursos de professor/as da Educação Infantil a respeito das relações de gênero: um olhar para os “cantinhos” pedagógicos. 2021. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2021.
FINCO, D. Educação Infantil, espaços de confronto e convívio com as diferenças: análise das interações entre professoras e meninas e meninos que transgridem as fronteiras do gênero. 2010. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
FINCO, D. Encontro com as diferenças na educação infantil: meninos e meninas nas fronteiras de gênero. Leitura: Teoria e Prática, Campinas, v. 31, n. 61, p. 169-184, nov. 2013.
SCOTT, J. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99, jul./dez. 1995.
SILVA, T. J. da. Organização e utilização dos espaços físicos na Educação Infantil: um estudo sob a ótica do gênero. 2015. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2015.
Texto: A autora é doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
